quarta-feira, 21 de março de 2012

Sobre carrões e licitações

Dois casos me chamaram a atenção esse fim de semana. A relação entre eles não existe a não ser pelo papel da mídia de escândalos em ambos. Thor Batista atropelou e “matou” um ciclista em uma rodovia.  Empresas suspeitas foram flagradas esclarecendo como funciona o esquema de cartas marcadas nas licitações do governo. Um banquete para a mídia e a opinião pública. Vamos então por partes.

O caso das empresas corruptas é tão emblemático quanto o de políticos gravados colocando dinheiro nas meias. É crime. É corrupção. É normal. Sim, é normal no Brasil, mas nem por isso deixa de estar errado e precisa ser apurado. O que não dá é pra ver político vindo colocar a cara na mídia sedenta por polêmica e dizer que é um absurdo e que essas quatro empresas precisam ser investigadas. Discursos vagos que surgem antecedendo o pedido de uma CPI todas as vezes que a imprensa levanta algum tapete.
 
Mas o pior dessa história toda eu ouvi hoje na CBN da jornalista Lúcia Hipólito, que parece que continua bêbada. Para demonstrar a impunidade no nosso país ela citou um caso nos Estados Unidos em que um senador corrupto saiu de um julgamento direto para a cadeia. Até aí seria realmente uma punição exemplar. O problema é que o caso citado por ela foi de um episódio do seriado Law in Order que ela assistiu no último fim de semana. É sério demais isso. Uma jornalista respeitada fez essa comparação ressaltando a seriedade que a lei é cumprida nos states.
 
E então o caso de Thor Batista. Esse sim, um playboy, burguês, filho de bilionário. Não é preciso nem entender o que aconteceu para considerá-lo culpado. Ou pelo menos foi isso que a imprensa vendeu e a opinião pública comprou sem grandes dificuldades. Acontece que daqui a uma semana, quando a perícia do acidente estiver pronta a notícia estará com prazo de validade vencida. Temos que entender que não dá pra esperar até lá para mais uma polêmica ser levantada. De concreto, um carro que pode atingir velocidade altíssima, uma rodovia mal iluminada e um jovem no volante que desde que tirou a carteira de motorista já tem 51 pontos na carteira.
 
Podemos falar que, embora o carro possa atingir 220 km/h, a velocidade da via é de 110 km/h e que atropelamento não é que nem levar choque, onde faz diferença se foi 110 ou 220. Podemos falar também que a rodovia mal iluminada é responsabilidade do governo, assim como passarelas de pedestres em um local onde muitos atravessam a pista colocando suas próprias vidas em risco. Podemos ainda levantar a questão que pontos na carteira só são acumulados de ano em ano e não desde que você tirou a carteira e que, ainda que fosse, não dizem necessariamente que você é imprudente, afinal às vezes pode ser falta de atenção, falta de tempo para procurar uma vaga, falta de conhecimento das leis de trânsito ou até mesmo abuso de autoridade de algum guarda de trânsito. Mas a intenção não é defender alguém que terá condições e advogados para se defender “sozinho”.
 
A questão é que o playboy está julgado e considerado culpado. Outros atropelamentos ocorreram no mesmo dia. A certeza de que nenhum dos atropeladores está preso vem do fato de que o trânsito no Brasil não coloca ninguém atrás das grades. Seja ele rico, pobre ou dono de empreiteira corrupta. Somos todos iguais perante a (in)Justiça Brasileira, até que se prove o contrário. A imprensa tenta mostrar algo diferente em busca de vender notícia. E aí vem a relação entre as duas notícias. Nenhum dos sócios das empresas gravadas deve ser condenado só porque a imprensa quer. O filho do bilionário não pode ser culpado de assassinato porque a mídia disse que foi assim que aconteceu. Podem até ir para a cadeia. Mas só se casos semelhantes também acabem em cadeia. De outro modo é injustiça aplicar a justiça somente para aqueles que vendem jornal. E a imprensa deve se ater a dar a notícia. Se vender é outro papo.

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