A polarização que acontece no Brasil é cada vez mais clara e
acentuada. Um fenômeno que, aliás, não se limita a solos tupiniquins.
Uma excelente matéria sobre esse assunto trata de um estudo de
cientistas da computação e cientistas sociais da Universidade de São
Paulo (USP), que começou a analisar o comportamento dos indivíduos no
Facebook em 2015. A matéria da revista Galileu você pode encontrar aqui:
https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2018/08/graficos-mostram-polarizacao-politica-nas-redes-sociais-no-brasil.html
Mas
vou destacar dois gráficos do estudo que mostram como as opiniões dos
brasileiros eram divididas. O primeiro gráfico reflete essa divisão
antes de 2013, quando a pesquisa descobriu que usuários brasileiros do
Facebook com interesses políticos poderiam ser categorizados em seis
“comunidades de usuários” com base nos tipos de páginas que visitavam:
(1) políticos e partidos conservadores; (2) políticos e partidos de
esquerda; (3) grupos anticrime de linha dura; (4) campanhas
anticorrupção; (5) movimentos sociais progressistas; e (6) direitos
humanos e ambientalismo.
O
segundo gráfico mostra como esses grupos se alinharam, se uniram e
evoluiram com o passar do tempo. Em 2016, o resultado mostrava o
seguinte cenário:
E
o que a live do Embaixador tem a ver com isso? Se hoje vivemos o Brasil
dos Cloroquiners x Querenteners, da Saúde x Economia e da Vida x
Emprego, uma faísca tem um poder de incendiar qualquer situação. E nesse
contexto, Gusttavo Lima fez uma live que foi um sucesso de público
absurdo. Eu não vi. Mas em uma conversa com colegas da área de marketing
e entretenimento, me falaram que "foi chute no balde e prato quebrado".
Disseram que ele realmente passou do ponto.
Como é de
conhecimento de muitos, o caso foi parar no Conar - Conselho Nacional de
Autorregulamentação Publicitária. E aqui cabe um aparte. O Conar no ano
passado julgou 329 casos. Esse é o número de casos julgados! Não é o
número de denúncias recebidas. Imagine que cada cidadão ofendido por
algum comercial exerça seu direito de fazer uma denúncia. Para cada caso
julgado, é provável que mais de uma denúncia tenha sido feita, correto?
Pois foi o que aconteceu nesse caso. Denúncias junto ao Conar ocorrem
aos montes. Todos os dias.
Só para dar um exemplo, quem se lembra do famoso comercial Pôneis Malditos para a Nissan?
Pois
esse reclame que foi um sucesso à época recebeu cerca de 30 denúncias
vindas de diferentes partes do Brasil, por fazer a associação de
figuras infantis – no caso, os pôneis em desenho animado – com a palavra
“malditos”. Ao final, o Conar decidiu por não punir a marca, não
entendendo que a associação dos pôneis com palavra "malditos" era
inadequado para crianças.
Ao que parece, a questão da live do
cantor sertanejo agora também trata do uso inadvertido de bebida
alcóolica, sem o devido cuidado com a audiência. O cantor rapidamente
ganhou um aliado ilustre em sua defesa:
Não vejo problema nenhum em um posicionamento do presidente. Mas aí o fato ganha uma outra escala:
E
aí, vemos mais uma briga da esquerda x direita em uma questão que não
tem absolutamente nada a ver com um posicionamento político. Ou melhor,
apesar de ser legítimo ter uma opinião alicerçada em um posicionamento
político, essa mesma opinião não precisa necessariamente estar ligada a
outras como um efeito cascata. Porque hoje, se eu sou defensor do meio
ambiente, tenho que necessariamente inserir no meu pacote de
posicionamentos a luta pelos direitos LGBTQ+, a defesa das empresas
estatais e, obviamente, o isolamente social. E por outro lado, se estou
em defesa do desenvolvimento econômico, tenho que incluir na minha
mochila o Estado mínimo, a cloroquina e o direito de andar armado para
defender a minha família.
Não acho que o caminho seja esse. Ou
melhor... que os caminhos sejam SÓ esses. Esses dois. Até porque eles
geram incongruências. Como agora, por exemplo, quando aqueles que se
consideram estar do lado da defesa da família e da moral, para se
manterem alinhados com seus pares políticos, defendem nesse caso o
direito do cantor exagerar na(s) dosse(s) sem qualquer preocupação com o
público que está conectado com ele. E assim seguimos o jogo em que um
lado realmente acredita que está ganhando de goleada do outro, enquanto o
placar mostra uma derrota acachapante para todos os lados.