sábado, 27 de junho de 2020

Polarizado

A polarização que acontece no Brasil é cada vez mais clara e acentuada. Um fenômeno que, aliás, não se limita a solos tupiniquins. Uma excelente matéria sobre esse assunto trata de um estudo de cientistas da computação e cientistas sociais da Universidade de São Paulo (USP), que começou a analisar o comportamento dos indivíduos no Facebook em 2015. A matéria da revista Galileu você pode encontrar aqui:
https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2018/08/graficos-mostram-polarizacao-politica-nas-redes-sociais-no-brasil.html
Mas vou destacar dois gráficos do estudo que mostram como as opiniões dos brasileiros eram divididas. O primeiro gráfico reflete essa divisão antes de 2013, quando a pesquisa descobriu que usuários brasileiros do Facebook com interesses políticos poderiam ser categorizados em seis “comunidades de usuários” com base nos tipos de páginas que visitavam: (1) políticos e partidos conservadores; (2) políticos e partidos de esquerda; (3) grupos anticrime de linha dura; (4) campanhas anticorrupção; (5) movimentos sociais progressistas; e (6) direitos humanos e ambientalismo.
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O segundo gráfico mostra como esses grupos se alinharam, se uniram e evoluiram com o passar do tempo. Em 2016, o resultado mostrava o seguinte cenário:
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E o que a live do Embaixador tem a ver com isso? Se hoje vivemos o Brasil dos Cloroquiners x Querenteners, da Saúde x Economia e da Vida x Emprego, uma faísca tem um poder de incendiar qualquer situação. E nesse contexto, Gusttavo Lima fez uma live que foi um sucesso de público absurdo. Eu não vi. Mas em uma conversa com colegas da área de marketing e entretenimento, me falaram que "foi chute no balde e prato quebrado". Disseram que ele realmente passou do ponto.
Como é de conhecimento de muitos, o caso foi parar no Conar - Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária. E aqui cabe um aparte. O Conar no ano passado julgou 329 casos. Esse é o número de casos julgados! Não é o número de denúncias recebidas. Imagine que cada cidadão ofendido por algum comercial exerça seu direito de fazer uma denúncia. Para cada caso julgado, é provável que mais de uma denúncia tenha sido feita, correto? Pois foi o que aconteceu nesse caso. Denúncias junto ao Conar ocorrem aos montes. Todos os dias.
Só para dar um exemplo, quem se lembra do famoso comercial Pôneis Malditos para a Nissan?
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Pois esse reclame que foi um sucesso à época recebeu cerca de 30 denúncias vindas de diferentes partes do Brasil, por fazer a associação de figuras infantis – no caso, os pôneis em desenho animado – com a palavra “malditos”. Ao final, o Conar decidiu por não punir a marca, não entendendo que a associação dos pôneis com palavra "malditos" era inadequado para crianças.
Ao que parece, a questão da live do cantor sertanejo agora também trata do uso inadvertido de bebida alcóolica, sem o devido cuidado com a audiência. O cantor rapidamente ganhou um aliado ilustre em sua defesa:
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Não vejo problema nenhum em um posicionamento do presidente. Mas aí o fato ganha uma outra escala:
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E aí, vemos mais uma briga da esquerda x direita em uma questão que não tem absolutamente nada a ver com um posicionamento político. Ou melhor, apesar de ser legítimo ter uma opinião alicerçada em um posicionamento político, essa mesma opinião não precisa necessariamente estar ligada a outras como um efeito cascata. Porque hoje, se eu sou defensor do meio ambiente, tenho que necessariamente inserir no meu pacote de posicionamentos a luta pelos direitos LGBTQ+, a defesa das empresas estatais e, obviamente, o isolamente social. E por outro lado, se estou em defesa do desenvolvimento econômico, tenho que incluir na minha mochila o Estado mínimo, a cloroquina e o direito de andar armado para defender a minha família.
Não acho que o caminho seja esse. Ou melhor... que os caminhos sejam SÓ esses. Esses dois. Até porque eles geram incongruências. Como agora, por exemplo, quando aqueles que se consideram estar do lado da defesa da família e da moral, para se manterem alinhados com seus pares políticos, defendem nesse caso o direito do cantor exagerar na(s) dosse(s) sem qualquer preocupação com o público que está conectado com ele. E assim seguimos o jogo em que um lado realmente acredita que está ganhando de goleada do outro, enquanto o placar mostra uma derrota acachapante para todos os lados.

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